quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Como lidar com a timidez do meu filho?

Tenho um “bichinho do mato” em casa.
 Como lidar com a timidez do meu filho?






 Fabíola Sperandio Teixeira do Couto
Pedagoga- Psicopedagoga
Terapeuta de Família e Casais

O mundo atual ágil e dinâmico tem sido destacado por uma enxurrada de laudos de crianças hiperativas, ansiosas, falantes e muitas vezes sem limites. Mas, e quanto à criança retraída, o que tem sido falado?
Crianças que não gostam de evidência ficam assustadas quando a atenção recai sobre elas. Crianças que expressam pouco através da fala, possuem um tom de voz baixo e muitas vezes projetam a voz para dentro, são crianças tímidas. Ser uma criança tímida é um problema? Não! Porém precisamos ajudá-la para que isso não traga dificuldades nas relações sociais e no aprendizado. A família precisa identificar e respeitar o modo de ser dessa criança. Se o “estado tímido” não a leva a se isolar, a própria família e a escola poderão juntas ajudá-la. Agora, se o isolamento se tornar frequente e aparente, será necessário a ajuda de um profissional para trabalhar ferramentas de desenvoltura com a criança.
Quando falo em isolamento refiro-me ao isolamento social em festividades, brincadeiras, viagens. Toda criança pode apresentar momentos em que rejeite o coletivo, desde que isso não seja uma regra e, sim, uma exceção. A intervenção neste caso é de suma importância no período de formação de vínculos sociais (início da idade escolar).
A retração social ou timidez geralmente se destaca por volta dos primeiros anos de vida. Quando a criança é inserida na escola, esse momento promove o primeiro estado de independência familiar. Ao chegar ao ambiente escolar e se deparar com pessoas diferentes da família, a criança passará a enfrentar seus erros e acertos nas relações. É neste momento, também, que ela começa a descobrir regras diferentes de sua casa. Com as regras chegam as censuras e a autocensura. Inicia-se aí o primeiro receio de se decepcionar, de não corresponder o de desagradar ao outro. Mesmo tão pequena, para não se aventurar em erros e ser criticada pelo outro, a criança tímida recua e se reserva. Ela não se   arrisca para não ser corrigida porque ao ser corrigida, sente enorme vergonha e dor por ter frustrado alguém.  Reservar-se para não ser exposta, é um caminho que não lhe fará bem. A timidez é caracterizada pela preocupação excessiva com suas percepções, atitudes, reações e por pensamentos demasiados. Mesmo crianças de uma ano e meio já podem apresentar esse quadro.
São dois aspectos que podem colaborar para o desencadeamento de uma criança tímida: o ambiente familiar (dinâmica da família) e o hereditário (carga genética). O ambiente familiar castrador e repressivo, que não permita a experimentação, pode trilhar esse caminho da não exposição e aventura. Já a carga genética refere-se à herança da personalidade de um dos seus genitores. Exatamente por esses fatores que nos deparamos com pessoas extrovertidas e tímidas em nossa sociedade. Uma criança tímida inserida em uma família extrovertida, aos poucos ela irá vencendo a sua timidez pelo estímulo familiar. Uma criança tímida inserida em uma família reservada, a tendência natural será a criança se retrair cada vez mais.
            O papel da família é decisivo para o combate da timidez da criança. Ao gerar segurança e aceitação do jeito de ser, a criança se sentirá livre para se arriscar mais nas relações sociais e diminuirá a ansiedade por medo de errar e se decepcionar. Vale ressaltar que uma criança extrovertida e social, mas, que ao mesmo tempo demonstra timidez temporária em alguma situação ou local, isso é perfeitamente aceitável.
           Aqui vão algumas dicas para as famílias de crianças que estão apresentando um quadro de timidez:
- promova atividades coletivas onde a criança terá que se relacionar com o outro: parque do condomínio, clube, uma passeio no bosque, locais em que ela encontrará outras crianças para brincar e socializar-se;
- atraia amiguinhos para passeios em sua casa, cinema, teatro e observe o movimento de integração. Você poderá dar dicas após observá-la, para que os próximos encontros sejam ainda mais produtivos;
-  atue para autonomia da criança. Dê pequenas tarefas onde ela possa caminhar sem você. Exemplo: pegar uma bola que caiu no meio de um grupo de crianças; ir até o caixa de uma lanchonete fazer o seu pedido; escolher um livro, em uma livraria, procurar um atendente para informações e se dirigir ao caixa para o pagamento; entregar o convite do seu aniversário e dar informações sobre a festa aos familiares; dar recados entre outros afazeres que permitam caminhar sem a sombra de um tutor.
            Críticas e brincadeiras (que parecem inocentes, mas não são) não colaboram com as crianças. Evite expô-las. Ações e falas em público só pioram o quadro. Portanto, jamais faça comentários como: meu filho é um bichinho do mato; fala filho com as pessoas; parece que não dou educação; ele(a) me envergonha ,porque parece mal educado; eu ensino cumprimentar, mas não aprende; ele(a) é tímido e isso não me puxou; tímido igual fulano, credo!
            Geralmente as pessoas percebem logo o perfil das crianças. Reconhecem as extrovertidas e as tímidas. O importante é saber respeitar e trabalhar para ajudar a obter o equilíbrio a fim de que   tenha um desenvolvimento sadio e harmônico.




segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Mães abusivas



Mães abusivas
Fabíola Sperandio Teixeira do Couto 
Pedagoga- Psicopedagoga
Terapeuta de Família e Casais


Neste artigo quero abordar sobre os abusos cometidos por algumas mães na vida dos seus filhos. Sim! Existem mães abusivas! E, por incrível que pareça, em meio aos abusos encontramos presente o AMOR. Mas, poderia também chamar pais abusivos, avós abusivos, responsável abusivo. Afinal, esta escrita vai para aquele que participa da criação de um ser e nesta criação, cometem abusos que irão interferir na sua formação.
Poderia também utilizar o termo mães vampiras, até ficaria mais na moda, uma vez que os filmes / sagas estão tão presentes em nossas vidas e de nossas crianças e adolescentes, de repente até ficaria mais atrativo. Mas, vamos lá! Mães abusivas ou vampiras são aquelas que sugam a energia de suas crias, são psicovenenosas, não conseguem perceber que estão sugando toda a autoestima de seus filhos quando os superprotegem ou oferecem críticas severas sobre o seu comportamento.
Essas mães alimentam da fragilidade de seus filhos, sugando toda possibilidade do crescer saudável até para que se sintam úteis ou boas provedoras educacionais. Estranho, não é? Porém é exatamente isso que fazem. Muitas vezes humilham seus filhos em público para ter a oportunidade de expor uma ação de comando e parecer que estão atentas ao processo educacional dos filhos.
Essa personalidade venenosa procura até nos momentos de vitórias algo que não está bem para que o negativo sobressaia. Exemplo: a criança conseguiu notas acima da média em 8 das 10 disciplinas, nas outras duas manteve-se na média escolar. A mãe venenosa só fala das notas medianas, cobra excessivamente de seu filho e ainda conta para todos que ele não está bem na escola, não percebendo que essa atitude só o faz sentir que está sempre “devendo” e que a dedicação nas demais disciplinas nem foi notada.
Mães venenosas também estão sempre irritadas, intimidadoras e desestabilizadoras. O perfeccionismo e a agressividade podem transformar a vida de todos a sua volta em um caos, uma condição completa de ausência de paz. Utilizam muito a agressividade verbal para tornar o outro um ser pequeno, fraco, incapaz e muito inseguro. Assim, sentem-se poderosas e atacam-nos repetindo o padrão de comportamento diariamente.
A impressão que passam é que, dificultando a vida do outro, possuem mais utilidade, mais serventia e mais necessidade de estarem por perto. Qualquer tentativa de independência do ser que está sobre a sua custódia é uma afronta ao seu papel.
Percebe-se um amor egoísta e interessado em suas atitudes, e todo esse movimento se torna bastante sufocante e destrutivo. Muitas famílias não percebem esse relacionamento destrutivo e acabam por coparticipar, tornando a vítima estendida aos demais familiares.
Atendendo mães abusivas, pude perceber que são pessoas muito inseguras, com necessidade de controlar tudo, uma ansiedade além da normalidade, muitas vezes solitárias, que não conseguem encarar as suas próprias limitações e deficiências e que projetam no outro tudo o que não conseguiram ser ou que conseguiram com muito esforço e sofrimento.
Daí vocês podem estar se perguntando: a pessoa que tem uma mãe abusiva então está condenada? Não! É possível lidar com essa mãe venenosa! A primeira coisa a ser feita é detectá-la. Depois, quebrar o círculo do abuso. É claro que, para percepção e quebra desse círculo, a criança precisará de ajuda de familiares que percebam e estejam dispostos a enfrentarem a situação e profissionais capacitados. Já os adultos que vivenciaram até essa fase as ações da mãe, precisam reconhecê-la e enfrentá-la com sabedoria.
Reconhecer a manipulação não é nada fácil, primeiro porque pode ser muito sutil e depois porque a pessoa acaba por se perceber fraca por ter caído por tanto tempo. Então, vitimizar ou deixar a manipuladora se fazer de vítima, não ajudará em nada. Encarar sua fragilidade e a “doença” de sua mãe é o primeiro passo para dar o basta. Mães abusivas possuem uma tendência de mostrar-se sofredoras, feridas e incompreendidas em suas intenções, mas não podemos tirar o foco dos filhos, os mais feridos são eles.
Algumas dicas são importantes para perceber se temos ao nosso lado ou ao lado de alguém que queremos bem, uma pessoa abusiva: mãe, pai, irmão, avós, cônjuge, chefe...
1- Ao perceber que algo não está legal na forma como você se sente com a pessoa que está lhe falando/tratando, comece a notar a situação que te trouxe desconforto. Anote a frase, o gesto, o tom, aquilo que ficou latente.
2- Registre, também, o comportamento individual da pessoa em situações que poderiam ser agradáveis e não foram: momentos de premiação; festividades familiares; viagens; passeios. Observe por que a pessoa não interage com alegria e entrega. Por que parece tão armada? Procure ficar fora da cena para percebê-la.
3- Outro registro necessário é anotar os gatilhos do descontentamento da pessoa. O que dispara a insatisfação? O que gera irritação? Não fazer o que ela quer? Não compactuar com alguma ideia? Não permitir a manipulação?
4- Observe se, além de você, outras pessoas passam pelos abusos. Perceber que você não é o único pode fortalecer (favorecer) para enxergar as dificuldades da abusadora. Claro que percebendo não resolverá a situação, você poderá alertar as outras vítimas e juntos buscarem recursos para mudanças de comportamento emocional de todos os envolvidos, incluindo o abusador. “Muda que o outro muda”, as vítimas mudando, o abusador ficará sem o papel complementar. Só há o abusador porque existe o abusado. Certo?
Ser filho ou fazer parte da vida de uma pessoa infeliz e abusiva é muito difícil, mas não impossível. A partir da consciência do que está ocorrendo, torna-se mais fácil promover ações de reversão do quadro.
Buscar entender que as agressões verbais e as intolerâncias que tanto contribuíram para o adoecimento emocional, que essas “feiuras” não pertencem a você e sim ao agressor, lhe permitirá reagir e lutar. Compreender, também, que abusador e abusado precisam de suporte e ajuda é um passo para relação saudável de todos os que estão no ciclo.
Os profissionais que lidam com a educação, ao se depararem com uma mãe abusiva, têm o dever de orientar quanto à busca de uma ajuda profissional. Procurar aliviar a dor da criança nesse quadro que ela se encontra é essencial.
Outra ação importante é não cairmos no erro de comparar as mães abusivas com as mães amorosas. Aceitar a situação e tratá-la é a atitude mais certa e saudável.
E, por último, quero ressaltar que ao chegar a vida adulta e decidir por afastar-se um pouco da rotina da mãe abusiva que, após todas as suas tentativas, não conseguiu evoluir, não se sinta culpado. Às vezes o afastamento é necessário para o amadurecimento de todos e para a busca de uma vida harmoniosa e feliz.
E viva a oportunidade que temos de escolha quando temos consciência do que nos faz mal!


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Ele começou a namorar: Jesus, Maria, José! E agora?


                                                                

Fabíola Sperandio Teixeira do Couto 
Pedagoga- Psicopedagoga
Terapeuta de Família e Casais


  O primeiro namoro do filho traz um turbilhão de sentimentos e emoções. Agora ele está declarando que deixou de ser criança. O "ficar" ficou para trás e o compromisso com alguém veio como uma bomba em meu coração.   Por que é tão difícil enxergar que ele cresceu?

   Em seguida, a mãe protetora aparece como uma general e começa a investigar a vida "da meliante": quantos anos ela tem?; onde estuda?; com quem ela mora?; quem são os pais?; onde se conheceram?; por que elaaaaaa? É quando ele dispara em seu peito: “Mãe,  estou como um besta apaixonado!” Besta? Essa menina mal entrou em nossa vida e já faz meu filho se sentir um besta? O que está acontecendo? Preciso de água. 

   A água desce lavando o desespero e trazendo a calma para prosseguir o diálogo.  Meu filho está apaixonado e a besta sou eu, que me apavorei por ele me mostrar que a criança  se foi e recebi um homem no lugar. Um homem lindo que veio dividir  com a mãe a beleza dessa experiência. Preciso me recompor.

   Então, filho, - dirijo-me docemente a ele, - será um prazer conhecer a sua namorada. Quando poderei conhecê - la,  quando retornar da vovó?  Uma pausa e ele dispara: “Mamãe,  a convidei para ir comigo e ela aceitou. O quê? Já vão viajar juntos? Essa juventude!  Me recompunovamente,  e disparei um: Que legal, meu filho!  Os pais dela confiam em você!

   E agora? Agora é preparar a avó. Ligo, rezando para não atender para que eu possa ganhar tempo. Ela atende no segundo toque. Mamãe,  tudo bem aí?  Então, a senhora irá receber o José para as férias por quatro dias. Sei o quanto você o ama, mas ele irá levar a Maria. Mamãe suspira e disparaJESUS!  Quase que apliquei o golpe da ligação estar ruim e desliguei, mas imediatamente  elacompletou: “Até que enfim esse menino resolveu trazer uma moça para cá.  Foi decidir assumir alguém só agora aos 20 anos, filha! DEMOROU!

   Vinte? Meu filho já está com 20 anos? Como esstempo passou assim, tão rápido?! A mamãe está mais preparada do que eu?! Na minha época, ela não era light” assim. Por que mudam tanto quando são os netos? Essa é uma outra questão.  Agora o que importa é que meu filho cresceu e está feliz! 

   Combinados com os filhos sobre o tema é essencial. Estabelecer uma idade para que os filhos comecem a namorar é função dos pais. O assunto pode ser introduzido a partir do momento em que a curiosidade aparece, através da rotina do diálogo estabelecido em casa.  Regras claras e limites estabelecidos evitam conflitos posteriores,  o que não significa agir de forma autoritária.

   Uma busca sobre os interesses dos filhos é essencial para identificar o que se passa na vidinha deles nesse momento que estão se despertando para o sexo oposto. Isso precisa ocorrer antes do primeiro relacionamento do " seu bebê". Por volta dos 11 e 14 anos de idade, a dificuldade em compreender os próprios sentimentos impossibilita qualquer autossuficiência. Dialogar, questionar, instruir é uma atitude de amor. Tudo depende de como a conversa é conduzida, como DIÁLOGO e não monólogo, no qual os pais perguntam e já respondem, queixa muito encontrada em meu consultório. Conte um pouco da sua história, divida as suas experiências amorosas. Será um excelenterecurso de aproximação e troca. Use bastante humor para quebrar o gelo. Em seguida, como os tempos mudaram, alerte quanto ao mundo atual.

   Um alerta importante! A relação entre mães/pais e filhos até pode garantir uma desenvoltura de diálogo pela amizade construída, mas os estudiosos em relações humanas, principalmente nas que envolvem adolescentes, são quase unânimes: mães/pais podem ser amigos de seus filhos, mas, antes de tudo, possuem papel importante na educação e formação humana das crianças, o que exige impor limites e disciplina no dia a dia.

 Chegar ao equilíbrio da forma correta de se aproximar de seus filhos, sem invadir a tão falada privacidade, não é tarefa fácil, já que os pais constantemente são vistos pelos adolescentes de modo crítico. Ressalto que, muitas vezes, não é a conversa que está faltando, mas sim a construção de um espaço de confiabilidade e nunca é tarde para começar. Boa sorte!





segunda-feira, 8 de junho de 2015

A festa está bombando!





A festa está bombando!

Fabíola Sperandio Teixeira do Couto 
Pedagoga- Psicopedagoga
Terapeuta de Família e Casais



        Um sábado que promete! Acho que era isso que passava na cabeça daquele jovem alto, esguio, cabeleira grande (era notório o prazer que sentia em passar os dedos, ajeitando-a ), roupa moderna e elegante. Chegou ao meio de um evento que não combinava com os seus 19 anos, mas mostrou-se gentil com todos.Tudo ocorria dentro do esperado da anfitriã, mas distante das expectativas daquele rapaz.

       A festa seguia o seu protocolo quando pude observar que o jovem começou a se concentrar no seu aparelho de celular. De repente ele disparou "flash de selfies" e se divertia ao postar. Percebi claramente que se tratava de uma festa paralela. Muito intrigada com essa cena e apaixonada por observar comportamentos, aproximei-me e logo pude ver que as fotos eram feitas de tal forma que passavam a ideia de que ele estava se divertindo muito naquela noite.

     Fiquei pensativa sobre isso. Enquanto grande parte dos convidados interagia, dançava e gargalhava, lá estava ele isolado em um mundo virtual expondo um mundo criado.Os outros se divertiam tanto que não tinham tempo para fotografar. Ele estava tão isolado que não conseguia se divertir.


         A necessidade de divulgar que temos dias e noites legais e bem sucedidas tem sido tão grande que acaba nos impedindo de fazer com que nossos dias e noites sejam verdadeiramente bem sucedidos ao lado dos amigos, conhecidos e desconhecidos. A oportunidade de crescimento que as relações proporcionam tem ficado de lado depois que a "obrigação de notificar" todos os passos apareceu neste século XXI. Façamos uma pausa para pensar nisso. Será que não estamos escravos da tecnologia? Buscamos tanto a liberdade e depois a entregamos para o mundo virtual.


terça-feira, 28 de abril de 2015

Entrevista para alunas da Universidade Católica de Goiás - PUC

Pontifícia Universidade Católica de Goiás
Transcrição da entrevista 

Tema: Aprendizagem




Professora Denyzye Aleksandra Zacharias
Alunas: Camila P. Guareschi, Isabela Medeiros , Natalia Goldfeld e Victoria Moraes.
Entrevistado: Fabiola Sperandio T. do Couto - Diretora Pedagógica da Comunidade Educacional ‘ O Pequeno Príncipe/Studium’
Entrevistadora: Natalia Goldfeld

Natália -  Qual a abordagem de ensino que a escola utiliza?

Fabíola Sperandio  - A nossa abordagem é sócio-interacionista. O sócio-interacionismo é uma teoria de aprendizagem cujo foco está na interação. Segundo esta teoria, a aprendizagem dá-se em contextos históricos, sociais e culturais e a formação de conceitos científicos dá-se a partir de conceitos cotidianos. Desta forma, o conhecimento real do educando é o ponto de partida para o conhecimento global, considerando-se o contexto sociocultural. A teoria oportuniza a criança trazer sua bagagem de conhecimento, sua vivência, essa troca gera o conhecimento e o conceito. Quando aproximamos o conteúdo do dia a dia, isso faz com que a criança aproxime do que está sendo proposto e assim ela se sente uma participante proativa do aprendizado e se apropria do conhecimento, formando e compreendendo o conceito.

Natália - E sobre o método lúdico, vocês o utilizam na hora da aprendizagem?

Fabíola Sperandio - Uma maneira eficiente de trabalhar conteúdo e gerar aprendizagem é através das atividades lúdicas. A pedagogia aprimorou a sua didática investindo em estratégias que promovem o aprender de maneira prazerosa. Essas atividades exigem um planejamento cuidadoso. Não é um brincar por brincar. São jogos e dinâmicas criativas com começo, meio e fim recheados de objetivos. São atividades muito pensadas e elaboradas. Essas atividades estimulam as várias inteligências proporcionando um envolvimento do educando de forma significativa. É possível associar à aquisição do conhecimento/conceito valores éticos e morais. Essa interdisciplinaridade promove a formação de cidadãos muito mais conscientes dos seus deveres e de suas responsabilidades. Além dos ganhos já citados, um outro enorme ganho é a interação entre aluno e professor. A atividade lúdica oportuniza uma mudança do modelo formal de aula para uma aula muito mais interativa. Não só utilizamos desse recurso na própria sala de aula como criamos ambientes especiais para esses momentos: laboratório de Ciências, laboratório de tecnologia, sala de Arte, sala de Música, sala de Leitura, etc.

Natália - Os pais se preocupam com o método utilizado pela escola, eles estão sempre a par da situação dos filhos, como é essa relação família-escola? Os professores procuram muito os pais ou existem reuniões?

Fabíola Sperandio -  No início do ano, realizamos uma reunião com os pais explicando a didática pedagógica da série. Convidamos os pais para uma sala de aula, sentam no lugar dos filhos e a professora apresenta o currículo anual e as estratégias para o desenvolvimento do currículo escolar ao longo do ano letivo. A partir do momento em que a família conhece e entende o processo que o filho vai ser inserido, ela se interessa. O pai só pode ter dúvida do que ele conhece, então apresentamos para estimulá-lo a perguntar, criticar e envolver. Há uma abertura, porque nós acreditamos que a parceria família-escola é importantíssima, a família tem a obrigação da educação e a escola da escolarização.
Bimestralmente encontramos as famílias em um plantão pedagógico onde analisamos o desenvolvimento do educando. Diante dessa análise estabelecemos metas e estratégias. No outro bimestre avaliamos os resultados e traçamos novos desafios. Esse acompanhamento bimestral família e escola é essencial.
A escola também proporciona o contato da família com os profissionais a qualquer momento. Basta entrar em contato que agendamos um horário com a coordenação, diretores e professores.

Natália - Qual é o procedimento da escola com os alunos que estão atrasados em relação aos outros? E os que possuem alguma dificuldade de aprendizagem?

Fabíola Sperandio - Acreditamos em uma escola que faça a diferença na vida da criança/ adolescente. E fazer a diferença significa trabalhar pensando no indivíduo e nas suas necessidades. Dessa forma, não só desenvolvemos estratégias para os alunos que possuem alguma dificuldade como cuidamos do aluno mediano e do aluno avançado. Aproximamos do aluno e oferecemos exatamente aquilo que ele necessita para se desenvolver cada vez mais. São criadas atividades de reforço de conteúdo, de desafios, atividades motivadoras.

Natália - E você acha que o aluno que está além, ou aquele que está atrasado perante a turma, atrapalha os que estão na média?

Fabíola Sperandio - Não! A maior riqueza de uma sala de aula são as diferenças. Aprendemos com as diferenças! Então ninguém atrapalha ninguém! Precisamos usar com sabedoria essa oportunidade. As dinâmicas oferecidas oportunizam o aprender um com o outro. Todo mundo ensina e todo mundo aprende.

Natália - Você concorda com a inclusão de crianças com necessidades especiais, com alguma deficiência orgânica ou neurológica, como o autismo e outras síndromes?

Fabíola Sperandio -  Sim! Mas eu me preocupo muito com a falta de preparo dos profissionais. Inclusão escolar é a acolhida de todas as pessoas, sem exceção, no currículo escolar, independentemente de cor, classe social e condições físicas e psicológicas. O termo é muito associado à inclusão educacional de pessoas com deficiência física e mental. Recebo profissionais das diversas áreas entendendo a inclusão de uma forma que exclui. Isso me entristece.
            Temos vários exemplos de alunos que tiveram muito sucesso em outras instituições após concluir todas as  etapas oferecidas em nossa escola, porque foram trabalhados de forma inclusiva. Oferecemos ferramentas de aprendizagem que foram aplicadas na aquisição do conhecimento e na vida cotidiana. Tenho artigos falando sobre isso. Desejo que leigos e profissionais da saúde e educação entendam as necessidades das crianças.
            Vejo a inclusão não só para quem tem laudo de autismo, TDAH, etc. Todo mundo em algum momento da vida pode precisa ser incluído: em um momento da separação dos pais (dor emocional), luto em família, uma criança com hipoglicemia (possui falta de atenção nos momentos de crise), um adolescente que não consegue se encontrar no esporte, entre outros.

Natália - A escola proporciona um acompanhamento de um psicopedagogo ou um psicólogo para os pais?

Fabíola Sperandio - Sim, quando percebemos que a escola tem suas limitações. O profissional não pode vir para cá para clinicar, aqui não é uma clínica, aqui é uma instituição, por mais que tenha uma psicopedagoga, uma psicóloga, que tenha qualquer profissional, aqui temos que agir como instituição, temos que preparar, mediar a família, escola, preparar o professor para trabalhar com aquele aluno. O aluno individual tem que ir para a clínica. Na escola vamos trabalhá-lo no grupo; quando sentimos que tem uma especificidade, que é preciso ser trabalhada no campo emocional, no campo da aprendizagem, encaminhamos para um profissional e pedimos para esse profissional criar laços com a escola. Por quê?  Porque o psicólogo ou o psicopedagogo vai observar no individual e juntos vamos casar as informações. Esse casamento é importante, mas quando percebemos que o aluno precisa de algo mais, que vai além dos nossos limites, procuramos uma fonoaudióloga, neurologista, uma psicóloga, um psicopedagogo. É uma coisa bem natural.

Natália - E qual o procedimento com os alunos que não alcançaram a média necessária para passar de ano?


Fabíola Sperandio - Para os alunos que não estão alcançando média, realizamos um acompanhamento chamado recuperação paralela. Lembra quando falei dos encontros com os pais? Então, nesses encontros traçamos metas na escola e para casa de recuperação de conteúdo. Recuperando o conteúdo, consequentemente o aluno recupera nota. Investimos muito no preventivo incentivando para o estudo, proporcionando encontros de orientação para formação de hábitos de estudo. Acompanhando os resultados temos condições de avaliar as estratégias propostas e ajustá-las.


sexta-feira, 20 de março de 2015

A que família pertenço?




A que família pertenço?


Fabíola Sperandio Teixeira do Couto 
Pedagoga- Psicopedagoga
Terapeuta de Família e Casais

       Pedro (nome fictício) saiu correndo ao meu encontro sem fôlego: “Fabíola, preciso falar com você!”. Vendo aquele rosto suado e com olhar bem arregalado, abaixo-me a sua altura e pergunto-lhe: “O que houve com você?”
      Conduzo-o até a minha sala, ofereço-lhe um copo com água e começamos uma conversa. Pedro estava se sentindo sem família. Repetia sem parar que seus pais diziam que ele agora tinha duas famílias, mas que ele se sentia órfão. Pude entender o seu sentimento quando fui conversando e buscando informações de como era a formação “dessas duas famílias”.
    Os pais de Pedro se separaram quando ele ainda tinha 3 anos, hoje Pedro tem 12 anos. Desde então, Pedro ficou com a mãe. Nos finais de semana do pai, Pedro era buscado e passava os dois dias em programas com o pai e amigos do pai. Nos demais dias, era cuidado pela mãe.
     Acontece que Pedro é um menino muito ativo e por isso, muitas vezes sua mãe, sentindo-se cansada, entregava-o para avó materna cuidar por algumas semanas. Pedro conta que a mãe sempre pedia para avó assumi-lo, mas que a avó logo dizia: “Não dou conta desse menino! A minha parte já foi feita, criando você!”
   Entre idas e vindas para avó materna, a mãe acaba por entregar Pedro para o pai. Acontece que o pai casou-se e teve dois outros filhos. Pedro trouxe um desconforto para a nova família do pai com sua presença. A madrasta dá um ultimato para o marido, pai de Pedro, que o devolve para mãe. A mãe agora também tem um parceiro que vê Pedro como um “atrapalho” para a nova relação.
   Cansou só de ler essa confusão? Imagina o cansaço de Pedro como agente dessa história.
   Tenho visto inúmeras crianças vivenciando o drama do “pertencimento”. As tentativas de acertos dos adultos em novas relações estão, muitas vezes, fazendo de seus filhos um joguete e até produzindo sentimento de que eles são um incômodo para os seus genitores junto às novas formações familiares.
   As crianças e adolescentes passam a conviver com os novos parceiros dos pais e as novas famílias que acompanham esses parceiros.  De repente, quem tinha quatro avós, passa a ter oito: pai da mãe e mãe da mãe; pai do pai e mãe do pai; pai da madrasta e mãe da madrasta; pai do padrasto e mãe do padrasto. Depois os tios “legítimos” e os tios agregados com suas famílias. Sem falar na mistura cultural. Ufa! É muita gente!
    E mesmo com toda essa gente, ele se sente sem família. A que família ele pertence?
   Pedro, mesmo tão pequeno, conseguiu mostrar que se sente muitas vezes um estranho “nesses ninhos”. As conversas dos adultos e crianças muitas vezes parecem distantes, os costumes, nem se fala. E ele vai se encolhendo no sofá enquanto fala comigo, como se estivesse querendo retornar ao útero. Meu coração se aperta. Estico minha mão e ele a agarra. Segurando forte, ele pergunta se consigo entender que ele queria, na verdade, morar com o pai.
   Conversamos sobre a possibilidade e os caminhos para alcançar esse objetivo. Pedro sai animado e cheio de metas.
  Enquanto o vejo partir, fico pensando como devemos pensar em nossos atos quando envolvemos nossos pequenos. Como muitas vezes somos egoístas, levando a realização de uma “tal felicidade a qualquer preço” e excluímos quem um dia foi o maior motivo de alegria: o filho que nasceu.
  Claro que precisamos estar bem, mas, nessa busca de nova oportunidade, devemos ter cuidado com a inclusão dos filhos no processo. Ensinar os novos parceiros a respeitar o “que vem no pacote” (história, ex- mulher, filhos, família) é essencial.
  Não é possível ser feliz de novo, anulando o que faz parte de nós. Não é possível ser feliz  se entrar em um relacionamento, fragmentando, rejeitando uma parte. Não é possível ser feliz vendo um filho infeliz.
  Que possamos ajudar todos os “Pedros” dessa nova vida moderna. Se cada um de nós começar a entender que uma nova relação não pode “matar” a outra, teremos mais chances de inclusão em novas famílias. O pertencimento será tão natural que as crianças e adolescentes irão unir as pessoas e não se sentirem um estorvo para o novo momento dos pais. Lembrando que os adultos é que precisam conduzir. Os adultos precisam ser maduros.
  E o que aconteceu com as metas do Pedro? Bem, passaram-se algumas semanas, Pedro retorna para contar que o pai prometeu deixá-lo morar com ele depois que um “tal apartamento” ficar pronto. Pergunto se ele sabe quanto tempo levará para entrega da nova moradia. Pedro diz sem jeito: “uns três anos, mas eu vou esperar. “ Sorriu e me beijou.

  Espero que a promessa se cumpra. Não quero nem imaginar que o pai está tendo uma condução para ganhar tempo. Ele está cheio de esperança. Pedro continua com a mãe e o padrasto e comenta: “Minha avó anda muito ocupada, Fabíola. Ela está estudando, melhor assim, ela não disse que não dá conta de mim?.”  Em seguida, pisca, sorri e vai.



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Levei um choque! Choque estica ruga?












Levei um choque! Choque estica ruga?


Fabíola Sperandio Teixeira do Couto 
Pedagoga- Psicopedagoga
Terapeuta de Família e Casais


De repente um choque! Não foi um choque elétrico, mas de realidade.  Francisca, é como irei nomeá-la, chega após uma visita a uma loja de departamentos aparentemente anestesiada.

Arrisco a perguntar o que houve. Pronto! Foi como um gatilho. Francisca abaixa a cabeça e diz: “Por que trabalhei tanto?  Por que estudei tanto? Minha vida passou e eu envelheci. Estou cheia de marcas no rosto. Minha face está sem saúde. O tempo voa.”

Pude perceber a tristeza daquela mulher. Abracei-a demoradamente e procurei não negar os seus sentimentos, mas extrair o lado positivo desse tempo que diz ter passado tão rápido e não o ter aproveitado. Francisca lamentava, sem deixar cair uma lágrima, porém podia ouvir seu choro interno, o quanto tinha sido dura consigo mesma.

Conversamos, demoradamente, sobre a experiência de vida adquirida. Falamos sobre alegrias e dores. Francisca insistia nas rugas do seu rosto.

Audaciosamente a convidei para ir até o espelho comigo. Ela aceitou timidamente. Custou a levantar o olhar. Quando se encarou no espelho, eu propus nomear as ruguinhas. Ela me olhou sem entender. Insisti: “Vamos, Francisca, vamos brincar de dar nomes a essas ruguinhas?!” Ela deu meio sorriso. Meio? Sim. Aquele sorriso “meia boca”.

Então, comecei a estimulá-la a se recordar das experiências e atribuí-las a cada marca de expressão. A cada nome que ela falava, eu pegava a sua mão e a levava até uma das marcas. As próximas nomeações eu nem precisei encaminhar a sua mãozinha, ela já fazia com leveza.

De repente começou a sorrir e, quanto mais sorria, mais rugas apareciam. Só que Francisca não estava sofrendo ao vê-las, pelo menos naquele momento. Parecia que já estava achando bom ter mais rugas para nomear ainda mais. Estávamos rindo e brincando com aquilo que, pouco tempo atrás, a fazia sofrer.

Percebi que a acolhida, o encarar “o problema” e a leveza recheada de humor fizeram a Francisca repensar a sua dor.

E quantas dores a gente enfrenta diariamente, não é mesmo?  Quantas vezes pensamos no que fizemos ou deixamos de fazer? Já presenciei sofrimento de criança de 6 anos lamentando a educação infantil que se está encerrando, achando que a infância passou muito rápido.


Existem várias Francisca dentro de nós. Às vezes a escondemos, outras vezes a enfrentamos. O que vale nesta vida é o que a gente aprende, com ou sem ruguinhas, né, Dona Francisca?