quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Filho único

Filho único




Fabíola Sperandio Teixeira do Couto
Pedagoga- Psicopedagoga
Terapeuta de Família e Casais



Talvez você tenha se sentido atraído para esta leitura pensando que aqui seria discorrido sobre uma série de desvantagens de ter um filho único. Não trilharei este caminho.
Acredito que baseados em nossos ensinamentos que latejam em nosso inconsciente, somos, muitas vezes, repetidores de argumentações contrárias à opção de gerar um único filho. Porém, temos que levar em consideração que deparamos com filhos únicos oriundos de diversas situações: viuvez de um dos cônjuges, separação de casal, impossibilidade de ter outro filho pela genética ou pelo financeiro, “produção independente” ou opção mesmo.
O filho único tem todas as chances de aprender a socializar-se, dividir, ser generoso, cortês, companheiro da mesma forma do que se tivesse irmãos em casa. Por quê? Porque o filho único está inserido na família com primos, inserido no prédio ou bairro com amigos; e, sobretudo, participa do convívio escolar, local onde   promove o convívio igualitário e estimula a troca entre os indivíduos.
Quanto à  fama de que filho único é mimado,  é preciso fazê-los pensar que quando uma família possui atitudes de mimar a  criança, ela faz isso independente de ter um ou mais filhos. Vale ressaltar que muitas vezes nos deparamos com primogênitos ou caçulas muito mais cheios de vontade do que alguns filhos únicos.
A família de filho único não precisa compensar a ausência de irmãos. Está aí muitas vezes o erro. Uma eterna culpa que muitos genitores carregam que só atrapalha. Precisamos estar bem com as nossas escolhas ou possibilidades, porque estando feliz com um ou mais filhos, a chance de acertar na relação é muito maior.
 Não existem formas de lidar com os filhos ou com o filho único, existem sim necessidades e formatos diferentes. Exatamente porque são crianças com as suas individualidades e isso independe da quantidade de filhos. Encarar a escolha de ter um ou mais filhos é o melhor caminho para encontrar acertos na criação. Com a cabeça livre de fantasmas sobrará mais tempo para pensar e criar estratégias de convivência saudável.
Existem famílias que se sentem obrigadas a corresponder às expectativas da sociedade. Acham que precisam seguir a “ditadura” conceitual de modelo de família. Precisamos nos sentir livres da ideia de que ter um filho ou até não tê-lo  não pode ser um determinante para aceitação social ou para saúde emocional.
         Algumas pessoas defendem a redução do número de filhos,justificando condição financeira. Não vou me pautar por esse caminho porque não penso desta forma. Quem tem o desejo de ter filhos e os tem, com certeza até se sentiria muito capitalista se fosse justificar a quantidade pelo gasto de investimento. Filhos não custam caro. Nunca!  Eu os vejo sempre com o olhar do ganho que eles nos proporcionam de amadurecimento pessoal e espiritual. Então, mesmo com teses que defendem a redução de números de filhos associadas à   ascensão da mulher moderna no mercado de trabalho e no alto custo financeiro gerado, eu me recuso a ir por esse viés, mas respeito todos que pensam e escrevem partilhando dessa preocupação atual.
         
          Existe um ganho que as famílias de mais de um filho precisam aprender com os pais de filho único. Os pais acabam favorecendo o convívio com ele. Não há um pensamento de que o filho está com o irmão brincando, então estou livre para fazer outra coisa. Pais de um só filho se preocupam mais em marcar presença. Focam mais em seu filho, aproximam-se  e permitem  que ele acompanhe com maior proximidade a sua rotina. Com essa rotina de aproximação, pais e filho ampliam sua vivência e crescem muito juntos.
         
          Alguns filhos únicos se sentem tão completos que nem cobram irmãos. Outros se sentem tão amados que também gostariam de ter um irmão para usufruir do amor dos pais junto com ele. Com isso, temos filhos únicos que não cobram a continuidade da família, mas também temos os que cobram dos pais que tenham mais filhos. Essa situação só se tornará um problema se não houver transparência dos objetivos e metas familiares. Se a família está segura quanto à decisão ou  imposição da natureza (caso haja o desejo associado à impossibilidade), todos entenderão e conseguirão seguir com harmonia e alegria.
        
        O período que requer mais atenção de pais de único filho, acredito que seja a chegada da adolescência. A mistura de sentimentos e a busca da identidade muitas vezes traz a introspecção e a família precisa entender esse processo. Entender significa compreender o momento, mas jamais deixar de ser pai para ser amigo. Não é isso que o adolescente precisa. Serem pais passando segurança, oferecendo exemplo e presença é muito importante nesta fase. Oferecer um colo para confidências significa permitir a partilha de suas angústias para alguém que precisa ser o porto seguro sempre.
          
       Outro aspecto que percebo como muito angustiante nas famílias que atendo de filho único é o receio do filho se deparar com a morte dos pais e se sentir sozinho. Então eu pergunto: ter irmãos garante a companhia eterna? A família precisa dedicar-se  à criação de um vínculo saudável e que propicie o crescimento autônomo. É impossível prever o que acontecerá com a nossa família, independente se ela é grande ou pequena. Com a ausência dos pais, ter irmãos permite partilhar o luto, mas seria apenas uma parte dessa experiência dolorosa e não ela por inteiro.

         Se a opção foi um ou mais filhos, o importante é buscarmos a sabedoria para crescermos na convivência. Lutar para ter um lar harmonioso e recheados de momentos felizes, em meio às obrigações cotidianas, é o que nos realizará no final.

         Que sejamos pais livres das paranoias sociais! Viva a liberdade de escolha e a tranquilidade de lidar com aquilo que não podemos escolher.


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Crianças Manipuladoras

Crianças Manipuladoras





Fabíola Sperandio Teixeira do Couto
Pedagoga- Psicopedagoga
Terapeuta de Família e Casai


           “Eu fico com a pureza e a resposta das crianças: É a vida! É bonita e é bonita!”
          O nosso querido Gonzaguinha compôs uma música cuja frase chave é essa acima. Com ela, podemos interpretar que TODA criança é pura na visão do compositor, mas contrariando a bela letra que já cantarolamos inúmeras vezes, tenho que alertar que existem crianças más e manipuladoras. E, infelizmente, muito mais do que possamos imaginar.
       Se os adultos da relação somos nós, por que nos deixamos manipular ou não as percebemos? Vamos lá!
          Nós nos envolvemos emocionalmente com as crianças. Elas são meigas fisicamente, possuem uma voz doce e sabem piscar os olhinhos como ninguém quando desejam algo. E como nos derretemos por elas. Assim, fica difícil perceber quando elas mentem, criam, inventam e, muitas vezes, transformam a nossa vida em um caos.
         Adultos muito ocupados possuem a tendência de não verificar as versões dos fatos e já assumem o que a criança conta como verdade absoluta e saem fazendo aquele estrago na família, escola, condomínio onde moram, etc. Inocência dos responsáveis? Omissão? Comodismo? Seja qual for a palavra escolhida, na verdade, precisamos acreditar que podemos ser manipulados por crianças de 2 anos, por exemplo.
        Um dia pude acompanhar um caso bem intrigante. A família recorria à escola de seu filho com bastante contrariedade, alegando que seu pequeno estava sofrendo perseguição de colegas. A escola se prontificou a investigar a situação. Na devolutiva à família, foi pontuado que o filho estava com uma postura provocativa, o que gerava a reação dos colegas. Os pais, bastante revoltados, acusavam a escola de não cumprir com competência seu papel, acreditavam que seu filho era vítima de maus tratos dos colegas gratuitamente. O filho, percebendo o movimento defensivo dos pais, mostrou-se contrariado com a escola e solicitou a mudança da instituição. O mesmo foi transferido para outro ambiente escolar. Não demorou muito e a história se repetiu na outra escola. Os pais ainda não conseguiram enxergar o comportamento do filho e, novamente o transferiram de escola. Entre essas saídas e matrículas, a mesma criança também fazia severas queixas de perseguição sobre a síndica do prédio onde morava. A família se posicionava bravamente contra as regras e atitudes da síndica, que sempre penalizava o pobre filho. Percebendo a atitude defensiva sem confirmação da veracidade das histórias, o pequeno manipulador de 5 anos agora estava acusando a empregada de não lhe oferecer guloseimas após o almoço. E ainda foi além, a acusava de comê-las na sua frente. Isso resultou na demissão da funcionária de 4 anos de trabalho com essa família.
        O que acordou essa família? Uma viagem com amigos para praia. Juntos por 24 horas, os pais tiveram tempo, longe dos afazeres e entregues ao lazer, de ter a real percepção da personalidade do filho. Tudo começou ao observar, de longe, a resistência do filho às regras das brincadeiras com os filhos das famílias de amigos presentes na viagem. Depois, ver o filho maltratando o salva-vidas da praia foi triste, mas muito mais chocante, foi ouvi-lo narrar o que houve entre ele e o salva-vidas, uma vez que não sabia que os pais estavam por perto ouvindo e vendo tudo. Quanta dor e arrependimento por terem maltratado tantos profissionais sem a mínima razão. Depois, quanto tempo se perdeu reforçando o comportamento deste ser tão cheio de vontades más.
       Observar o comportamento das nossas crianças é muito importante. Crianças que maltratam animais, acham graça da dor do coleguinha, demonstram possessividade nas amizades, fazem dengo para conseguirem o que desejam ou se entregam a birras e emburramento, precisam de orientação e cuidados.
       Percebo a manipulação também quando os pais são separados. Se os pais não se unirem pela criação dos filhos através das trocas e diálogos, correm sérios riscos de serem manipulados. Neste caso, os ganhos secundários com a separação podem transformar os filhos em verdadeiras crianças cruéis. Na fase adulta, deparamo-nos com pessoas manipuladoras, maldosas, mentirosas, que culpabilizam o outro e podem ter aprendido essa conduta ainda bem pequeninas.
        Atenção às pequenas mentiras e transferências de culpa. Uma criança que está com uma tesoura na mão e nega que cortou a cortina, mesmo com todas as evidências, precisa ser acolhida e orientada. Achar engraçadinho e fingir que caiu em seu teatrinho, só a conduzirá para um comportamento de desvio de conduta.
         Alguns filmes retratam comportamentos destrutivos, raivosos, maldosos de crianças, mas, como aprendemos que crianças não mentem e são puras, fechamos os olhos, erroneamente, para essa possibilidade.



quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Como lidar com a timidez do meu filho?

Tenho um “bichinho do mato” em casa.
 Como lidar com a timidez do meu filho?






 Fabíola Sperandio Teixeira do Couto
Pedagoga- Psicopedagoga
Terapeuta de Família e Casais

O mundo atual ágil e dinâmico tem sido destacado por uma enxurrada de laudos de crianças hiperativas, ansiosas, falantes e muitas vezes sem limites. Mas, e quanto à criança retraída, o que tem sido falado?
Crianças que não gostam de evidência ficam assustadas quando a atenção recai sobre elas. Crianças que expressam pouco através da fala, possuem um tom de voz baixo e muitas vezes projetam a voz para dentro, são crianças tímidas. Ser uma criança tímida é um problema? Não! Porém precisamos ajudá-la para que isso não traga dificuldades nas relações sociais e no aprendizado. A família precisa identificar e respeitar o modo de ser dessa criança. Se o “estado tímido” não a leva a se isolar, a própria família e a escola poderão juntas ajudá-la. Agora, se o isolamento se tornar frequente e aparente, será necessário a ajuda de um profissional para trabalhar ferramentas de desenvoltura com a criança.
Quando falo em isolamento refiro-me ao isolamento social em festividades, brincadeiras, viagens. Toda criança pode apresentar momentos em que rejeite o coletivo, desde que isso não seja uma regra e, sim, uma exceção. A intervenção neste caso é de suma importância no período de formação de vínculos sociais (início da idade escolar).
A retração social ou timidez geralmente se destaca por volta dos primeiros anos de vida. Quando a criança é inserida na escola, esse momento promove o primeiro estado de independência familiar. Ao chegar ao ambiente escolar e se deparar com pessoas diferentes da família, a criança passará a enfrentar seus erros e acertos nas relações. É neste momento, também, que ela começa a descobrir regras diferentes de sua casa. Com as regras chegam as censuras e a autocensura. Inicia-se aí o primeiro receio de se decepcionar, de não corresponder o de desagradar ao outro. Mesmo tão pequena, para não se aventurar em erros e ser criticada pelo outro, a criança tímida recua e se reserva. Ela não se   arrisca para não ser corrigida porque ao ser corrigida, sente enorme vergonha e dor por ter frustrado alguém.  Reservar-se para não ser exposta, é um caminho que não lhe fará bem. A timidez é caracterizada pela preocupação excessiva com suas percepções, atitudes, reações e por pensamentos demasiados. Mesmo crianças de uma ano e meio já podem apresentar esse quadro.
São dois aspectos que podem colaborar para o desencadeamento de uma criança tímida: o ambiente familiar (dinâmica da família) e o hereditário (carga genética). O ambiente familiar castrador e repressivo, que não permita a experimentação, pode trilhar esse caminho da não exposição e aventura. Já a carga genética refere-se à herança da personalidade de um dos seus genitores. Exatamente por esses fatores que nos deparamos com pessoas extrovertidas e tímidas em nossa sociedade. Uma criança tímida inserida em uma família extrovertida, aos poucos ela irá vencendo a sua timidez pelo estímulo familiar. Uma criança tímida inserida em uma família reservada, a tendência natural será a criança se retrair cada vez mais.
            O papel da família é decisivo para o combate da timidez da criança. Ao gerar segurança e aceitação do jeito de ser, a criança se sentirá livre para se arriscar mais nas relações sociais e diminuirá a ansiedade por medo de errar e se decepcionar. Vale ressaltar que uma criança extrovertida e social, mas, que ao mesmo tempo demonstra timidez temporária em alguma situação ou local, isso é perfeitamente aceitável.
           Aqui vão algumas dicas para as famílias de crianças que estão apresentando um quadro de timidez:
- promova atividades coletivas onde a criança terá que se relacionar com o outro: parque do condomínio, clube, uma passeio no bosque, locais em que ela encontrará outras crianças para brincar e socializar-se;
- atraia amiguinhos para passeios em sua casa, cinema, teatro e observe o movimento de integração. Você poderá dar dicas após observá-la, para que os próximos encontros sejam ainda mais produtivos;
-  atue para autonomia da criança. Dê pequenas tarefas onde ela possa caminhar sem você. Exemplo: pegar uma bola que caiu no meio de um grupo de crianças; ir até o caixa de uma lanchonete fazer o seu pedido; escolher um livro, em uma livraria, procurar um atendente para informações e se dirigir ao caixa para o pagamento; entregar o convite do seu aniversário e dar informações sobre a festa aos familiares; dar recados entre outros afazeres que permitam caminhar sem a sombra de um tutor.
            Críticas e brincadeiras (que parecem inocentes, mas não são) não colaboram com as crianças. Evite expô-las. Ações e falas em público só pioram o quadro. Portanto, jamais faça comentários como: meu filho é um bichinho do mato; fala filho com as pessoas; parece que não dou educação; ele(a) me envergonha ,porque parece mal educado; eu ensino cumprimentar, mas não aprende; ele(a) é tímido e isso não me puxou; tímido igual fulano, credo!
            Geralmente as pessoas percebem logo o perfil das crianças. Reconhecem as extrovertidas e as tímidas. O importante é saber respeitar e trabalhar para ajudar a obter o equilíbrio a fim de que   tenha um desenvolvimento sadio e harmônico.




segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Mães abusivas



Mães abusivas
Fabíola Sperandio Teixeira do Couto 
Pedagoga- Psicopedagoga
Terapeuta de Família e Casais


Neste artigo quero abordar sobre os abusos cometidos por algumas mães na vida dos seus filhos. Sim! Existem mães abusivas! E, por incrível que pareça, em meio aos abusos encontramos presente o AMOR. Mas, poderia também chamar pais abusivos, avós abusivos, responsável abusivo. Afinal, esta escrita vai para aquele que participa da criação de um ser e nesta criação, cometem abusos que irão interferir na sua formação.
Poderia também utilizar o termo mães vampiras, até ficaria mais na moda, uma vez que os filmes / sagas estão tão presentes em nossas vidas e de nossas crianças e adolescentes, de repente até ficaria mais atrativo. Mas, vamos lá! Mães abusivas ou vampiras são aquelas que sugam a energia de suas crias, são psicovenenosas, não conseguem perceber que estão sugando toda a autoestima de seus filhos quando os superprotegem ou oferecem críticas severas sobre o seu comportamento.
Essas mães alimentam da fragilidade de seus filhos, sugando toda possibilidade do crescer saudável até para que se sintam úteis ou boas provedoras educacionais. Estranho, não é? Porém é exatamente isso que fazem. Muitas vezes humilham seus filhos em público para ter a oportunidade de expor uma ação de comando e parecer que estão atentas ao processo educacional dos filhos.
Essa personalidade venenosa procura até nos momentos de vitórias algo que não está bem para que o negativo sobressaia. Exemplo: a criança conseguiu notas acima da média em 8 das 10 disciplinas, nas outras duas manteve-se na média escolar. A mãe venenosa só fala das notas medianas, cobra excessivamente de seu filho e ainda conta para todos que ele não está bem na escola, não percebendo que essa atitude só o faz sentir que está sempre “devendo” e que a dedicação nas demais disciplinas nem foi notada.
Mães venenosas também estão sempre irritadas, intimidadoras e desestabilizadoras. O perfeccionismo e a agressividade podem transformar a vida de todos a sua volta em um caos, uma condição completa de ausência de paz. Utilizam muito a agressividade verbal para tornar o outro um ser pequeno, fraco, incapaz e muito inseguro. Assim, sentem-se poderosas e atacam-nos repetindo o padrão de comportamento diariamente.
A impressão que passam é que, dificultando a vida do outro, possuem mais utilidade, mais serventia e mais necessidade de estarem por perto. Qualquer tentativa de independência do ser que está sobre a sua custódia é uma afronta ao seu papel.
Percebe-se um amor egoísta e interessado em suas atitudes, e todo esse movimento se torna bastante sufocante e destrutivo. Muitas famílias não percebem esse relacionamento destrutivo e acabam por coparticipar, tornando a vítima estendida aos demais familiares.
Atendendo mães abusivas, pude perceber que são pessoas muito inseguras, com necessidade de controlar tudo, uma ansiedade além da normalidade, muitas vezes solitárias, que não conseguem encarar as suas próprias limitações e deficiências e que projetam no outro tudo o que não conseguiram ser ou que conseguiram com muito esforço e sofrimento.
Daí vocês podem estar se perguntando: a pessoa que tem uma mãe abusiva então está condenada? Não! É possível lidar com essa mãe venenosa! A primeira coisa a ser feita é detectá-la. Depois, quebrar o círculo do abuso. É claro que, para percepção e quebra desse círculo, a criança precisará de ajuda de familiares que percebam e estejam dispostos a enfrentarem a situação e profissionais capacitados. Já os adultos que vivenciaram até essa fase as ações da mãe, precisam reconhecê-la e enfrentá-la com sabedoria.
Reconhecer a manipulação não é nada fácil, primeiro porque pode ser muito sutil e depois porque a pessoa acaba por se perceber fraca por ter caído por tanto tempo. Então, vitimizar ou deixar a manipuladora se fazer de vítima, não ajudará em nada. Encarar sua fragilidade e a “doença” de sua mãe é o primeiro passo para dar o basta. Mães abusivas possuem uma tendência de mostrar-se sofredoras, feridas e incompreendidas em suas intenções, mas não podemos tirar o foco dos filhos, os mais feridos são eles.
Algumas dicas são importantes para perceber se temos ao nosso lado ou ao lado de alguém que queremos bem, uma pessoa abusiva: mãe, pai, irmão, avós, cônjuge, chefe...
1- Ao perceber que algo não está legal na forma como você se sente com a pessoa que está lhe falando/tratando, comece a notar a situação que te trouxe desconforto. Anote a frase, o gesto, o tom, aquilo que ficou latente.
2- Registre, também, o comportamento individual da pessoa em situações que poderiam ser agradáveis e não foram: momentos de premiação; festividades familiares; viagens; passeios. Observe por que a pessoa não interage com alegria e entrega. Por que parece tão armada? Procure ficar fora da cena para percebê-la.
3- Outro registro necessário é anotar os gatilhos do descontentamento da pessoa. O que dispara a insatisfação? O que gera irritação? Não fazer o que ela quer? Não compactuar com alguma ideia? Não permitir a manipulação?
4- Observe se, além de você, outras pessoas passam pelos abusos. Perceber que você não é o único pode fortalecer (favorecer) para enxergar as dificuldades da abusadora. Claro que percebendo não resolverá a situação, você poderá alertar as outras vítimas e juntos buscarem recursos para mudanças de comportamento emocional de todos os envolvidos, incluindo o abusador. “Muda que o outro muda”, as vítimas mudando, o abusador ficará sem o papel complementar. Só há o abusador porque existe o abusado. Certo?
Ser filho ou fazer parte da vida de uma pessoa infeliz e abusiva é muito difícil, mas não impossível. A partir da consciência do que está ocorrendo, torna-se mais fácil promover ações de reversão do quadro.
Buscar entender que as agressões verbais e as intolerâncias que tanto contribuíram para o adoecimento emocional, que essas “feiuras” não pertencem a você e sim ao agressor, lhe permitirá reagir e lutar. Compreender, também, que abusador e abusado precisam de suporte e ajuda é um passo para relação saudável de todos os que estão no ciclo.
Os profissionais que lidam com a educação, ao se depararem com uma mãe abusiva, têm o dever de orientar quanto à busca de uma ajuda profissional. Procurar aliviar a dor da criança nesse quadro que ela se encontra é essencial.
Outra ação importante é não cairmos no erro de comparar as mães abusivas com as mães amorosas. Aceitar a situação e tratá-la é a atitude mais certa e saudável.
E, por último, quero ressaltar que ao chegar a vida adulta e decidir por afastar-se um pouco da rotina da mãe abusiva que, após todas as suas tentativas, não conseguiu evoluir, não se sinta culpado. Às vezes o afastamento é necessário para o amadurecimento de todos e para a busca de uma vida harmoniosa e feliz.
E viva a oportunidade que temos de escolha quando temos consciência do que nos faz mal!


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Ele começou a namorar: Jesus, Maria, José! E agora?


                                                                

Fabíola Sperandio Teixeira do Couto 
Pedagoga- Psicopedagoga
Terapeuta de Família e Casais


  O primeiro namoro do filho traz um turbilhão de sentimentos e emoções. Agora ele está declarando que deixou de ser criança. O "ficar" ficou para trás e o compromisso com alguém veio como uma bomba em meu coração.   Por que é tão difícil enxergar que ele cresceu?

   Em seguida, a mãe protetora aparece como uma general e começa a investigar a vida "da meliante": quantos anos ela tem?; onde estuda?; com quem ela mora?; quem são os pais?; onde se conheceram?; por que elaaaaaa? É quando ele dispara em seu peito: “Mãe,  estou como um besta apaixonado!” Besta? Essa menina mal entrou em nossa vida e já faz meu filho se sentir um besta? O que está acontecendo? Preciso de água. 

   A água desce lavando o desespero e trazendo a calma para prosseguir o diálogo.  Meu filho está apaixonado e a besta sou eu, que me apavorei por ele me mostrar que a criança  se foi e recebi um homem no lugar. Um homem lindo que veio dividir  com a mãe a beleza dessa experiência. Preciso me recompor.

   Então, filho, - dirijo-me docemente a ele, - será um prazer conhecer a sua namorada. Quando poderei conhecê - la,  quando retornar da vovó?  Uma pausa e ele dispara: “Mamãe,  a convidei para ir comigo e ela aceitou. O quê? Já vão viajar juntos? Essa juventude!  Me recompunovamente,  e disparei um: Que legal, meu filho!  Os pais dela confiam em você!

   E agora? Agora é preparar a avó. Ligo, rezando para não atender para que eu possa ganhar tempo. Ela atende no segundo toque. Mamãe,  tudo bem aí?  Então, a senhora irá receber o José para as férias por quatro dias. Sei o quanto você o ama, mas ele irá levar a Maria. Mamãe suspira e disparaJESUS!  Quase que apliquei o golpe da ligação estar ruim e desliguei, mas imediatamente  elacompletou: “Até que enfim esse menino resolveu trazer uma moça para cá.  Foi decidir assumir alguém só agora aos 20 anos, filha! DEMOROU!

   Vinte? Meu filho já está com 20 anos? Como esstempo passou assim, tão rápido?! A mamãe está mais preparada do que eu?! Na minha época, ela não era light” assim. Por que mudam tanto quando são os netos? Essa é uma outra questão.  Agora o que importa é que meu filho cresceu e está feliz! 

   Combinados com os filhos sobre o tema é essencial. Estabelecer uma idade para que os filhos comecem a namorar é função dos pais. O assunto pode ser introduzido a partir do momento em que a curiosidade aparece, através da rotina do diálogo estabelecido em casa.  Regras claras e limites estabelecidos evitam conflitos posteriores,  o que não significa agir de forma autoritária.

   Uma busca sobre os interesses dos filhos é essencial para identificar o que se passa na vidinha deles nesse momento que estão se despertando para o sexo oposto. Isso precisa ocorrer antes do primeiro relacionamento do " seu bebê". Por volta dos 11 e 14 anos de idade, a dificuldade em compreender os próprios sentimentos impossibilita qualquer autossuficiência. Dialogar, questionar, instruir é uma atitude de amor. Tudo depende de como a conversa é conduzida, como DIÁLOGO e não monólogo, no qual os pais perguntam e já respondem, queixa muito encontrada em meu consultório. Conte um pouco da sua história, divida as suas experiências amorosas. Será um excelenterecurso de aproximação e troca. Use bastante humor para quebrar o gelo. Em seguida, como os tempos mudaram, alerte quanto ao mundo atual.

   Um alerta importante! A relação entre mães/pais e filhos até pode garantir uma desenvoltura de diálogo pela amizade construída, mas os estudiosos em relações humanas, principalmente nas que envolvem adolescentes, são quase unânimes: mães/pais podem ser amigos de seus filhos, mas, antes de tudo, possuem papel importante na educação e formação humana das crianças, o que exige impor limites e disciplina no dia a dia.

 Chegar ao equilíbrio da forma correta de se aproximar de seus filhos, sem invadir a tão falada privacidade, não é tarefa fácil, já que os pais constantemente são vistos pelos adolescentes de modo crítico. Ressalto que, muitas vezes, não é a conversa que está faltando, mas sim a construção de um espaço de confiabilidade e nunca é tarde para começar. Boa sorte!





segunda-feira, 8 de junho de 2015

A festa está bombando!





A festa está bombando!

Fabíola Sperandio Teixeira do Couto 
Pedagoga- Psicopedagoga
Terapeuta de Família e Casais



        Um sábado que promete! Acho que era isso que passava na cabeça daquele jovem alto, esguio, cabeleira grande (era notório o prazer que sentia em passar os dedos, ajeitando-a ), roupa moderna e elegante. Chegou ao meio de um evento que não combinava com os seus 19 anos, mas mostrou-se gentil com todos.Tudo ocorria dentro do esperado da anfitriã, mas distante das expectativas daquele rapaz.

       A festa seguia o seu protocolo quando pude observar que o jovem começou a se concentrar no seu aparelho de celular. De repente ele disparou "flash de selfies" e se divertia ao postar. Percebi claramente que se tratava de uma festa paralela. Muito intrigada com essa cena e apaixonada por observar comportamentos, aproximei-me e logo pude ver que as fotos eram feitas de tal forma que passavam a ideia de que ele estava se divertindo muito naquela noite.

     Fiquei pensativa sobre isso. Enquanto grande parte dos convidados interagia, dançava e gargalhava, lá estava ele isolado em um mundo virtual expondo um mundo criado.Os outros se divertiam tanto que não tinham tempo para fotografar. Ele estava tão isolado que não conseguia se divertir.


         A necessidade de divulgar que temos dias e noites legais e bem sucedidas tem sido tão grande que acaba nos impedindo de fazer com que nossos dias e noites sejam verdadeiramente bem sucedidos ao lado dos amigos, conhecidos e desconhecidos. A oportunidade de crescimento que as relações proporcionam tem ficado de lado depois que a "obrigação de notificar" todos os passos apareceu neste século XXI. Façamos uma pausa para pensar nisso. Será que não estamos escravos da tecnologia? Buscamos tanto a liberdade e depois a entregamos para o mundo virtual.


terça-feira, 28 de abril de 2015

Entrevista para alunas da Universidade Católica de Goiás - PUC

Pontifícia Universidade Católica de Goiás
Transcrição da entrevista 

Tema: Aprendizagem




Professora Denyzye Aleksandra Zacharias
Alunas: Camila P. Guareschi, Isabela Medeiros , Natalia Goldfeld e Victoria Moraes.
Entrevistado: Fabiola Sperandio T. do Couto - Diretora Pedagógica da Comunidade Educacional ‘ O Pequeno Príncipe/Studium’
Entrevistadora: Natalia Goldfeld

Natália -  Qual a abordagem de ensino que a escola utiliza?

Fabíola Sperandio  - A nossa abordagem é sócio-interacionista. O sócio-interacionismo é uma teoria de aprendizagem cujo foco está na interação. Segundo esta teoria, a aprendizagem dá-se em contextos históricos, sociais e culturais e a formação de conceitos científicos dá-se a partir de conceitos cotidianos. Desta forma, o conhecimento real do educando é o ponto de partida para o conhecimento global, considerando-se o contexto sociocultural. A teoria oportuniza a criança trazer sua bagagem de conhecimento, sua vivência, essa troca gera o conhecimento e o conceito. Quando aproximamos o conteúdo do dia a dia, isso faz com que a criança aproxime do que está sendo proposto e assim ela se sente uma participante proativa do aprendizado e se apropria do conhecimento, formando e compreendendo o conceito.

Natália - E sobre o método lúdico, vocês o utilizam na hora da aprendizagem?

Fabíola Sperandio - Uma maneira eficiente de trabalhar conteúdo e gerar aprendizagem é através das atividades lúdicas. A pedagogia aprimorou a sua didática investindo em estratégias que promovem o aprender de maneira prazerosa. Essas atividades exigem um planejamento cuidadoso. Não é um brincar por brincar. São jogos e dinâmicas criativas com começo, meio e fim recheados de objetivos. São atividades muito pensadas e elaboradas. Essas atividades estimulam as várias inteligências proporcionando um envolvimento do educando de forma significativa. É possível associar à aquisição do conhecimento/conceito valores éticos e morais. Essa interdisciplinaridade promove a formação de cidadãos muito mais conscientes dos seus deveres e de suas responsabilidades. Além dos ganhos já citados, um outro enorme ganho é a interação entre aluno e professor. A atividade lúdica oportuniza uma mudança do modelo formal de aula para uma aula muito mais interativa. Não só utilizamos desse recurso na própria sala de aula como criamos ambientes especiais para esses momentos: laboratório de Ciências, laboratório de tecnologia, sala de Arte, sala de Música, sala de Leitura, etc.

Natália - Os pais se preocupam com o método utilizado pela escola, eles estão sempre a par da situação dos filhos, como é essa relação família-escola? Os professores procuram muito os pais ou existem reuniões?

Fabíola Sperandio -  No início do ano, realizamos uma reunião com os pais explicando a didática pedagógica da série. Convidamos os pais para uma sala de aula, sentam no lugar dos filhos e a professora apresenta o currículo anual e as estratégias para o desenvolvimento do currículo escolar ao longo do ano letivo. A partir do momento em que a família conhece e entende o processo que o filho vai ser inserido, ela se interessa. O pai só pode ter dúvida do que ele conhece, então apresentamos para estimulá-lo a perguntar, criticar e envolver. Há uma abertura, porque nós acreditamos que a parceria família-escola é importantíssima, a família tem a obrigação da educação e a escola da escolarização.
Bimestralmente encontramos as famílias em um plantão pedagógico onde analisamos o desenvolvimento do educando. Diante dessa análise estabelecemos metas e estratégias. No outro bimestre avaliamos os resultados e traçamos novos desafios. Esse acompanhamento bimestral família e escola é essencial.
A escola também proporciona o contato da família com os profissionais a qualquer momento. Basta entrar em contato que agendamos um horário com a coordenação, diretores e professores.

Natália - Qual é o procedimento da escola com os alunos que estão atrasados em relação aos outros? E os que possuem alguma dificuldade de aprendizagem?

Fabíola Sperandio - Acreditamos em uma escola que faça a diferença na vida da criança/ adolescente. E fazer a diferença significa trabalhar pensando no indivíduo e nas suas necessidades. Dessa forma, não só desenvolvemos estratégias para os alunos que possuem alguma dificuldade como cuidamos do aluno mediano e do aluno avançado. Aproximamos do aluno e oferecemos exatamente aquilo que ele necessita para se desenvolver cada vez mais. São criadas atividades de reforço de conteúdo, de desafios, atividades motivadoras.

Natália - E você acha que o aluno que está além, ou aquele que está atrasado perante a turma, atrapalha os que estão na média?

Fabíola Sperandio - Não! A maior riqueza de uma sala de aula são as diferenças. Aprendemos com as diferenças! Então ninguém atrapalha ninguém! Precisamos usar com sabedoria essa oportunidade. As dinâmicas oferecidas oportunizam o aprender um com o outro. Todo mundo ensina e todo mundo aprende.

Natália - Você concorda com a inclusão de crianças com necessidades especiais, com alguma deficiência orgânica ou neurológica, como o autismo e outras síndromes?

Fabíola Sperandio -  Sim! Mas eu me preocupo muito com a falta de preparo dos profissionais. Inclusão escolar é a acolhida de todas as pessoas, sem exceção, no currículo escolar, independentemente de cor, classe social e condições físicas e psicológicas. O termo é muito associado à inclusão educacional de pessoas com deficiência física e mental. Recebo profissionais das diversas áreas entendendo a inclusão de uma forma que exclui. Isso me entristece.
            Temos vários exemplos de alunos que tiveram muito sucesso em outras instituições após concluir todas as  etapas oferecidas em nossa escola, porque foram trabalhados de forma inclusiva. Oferecemos ferramentas de aprendizagem que foram aplicadas na aquisição do conhecimento e na vida cotidiana. Tenho artigos falando sobre isso. Desejo que leigos e profissionais da saúde e educação entendam as necessidades das crianças.
            Vejo a inclusão não só para quem tem laudo de autismo, TDAH, etc. Todo mundo em algum momento da vida pode precisa ser incluído: em um momento da separação dos pais (dor emocional), luto em família, uma criança com hipoglicemia (possui falta de atenção nos momentos de crise), um adolescente que não consegue se encontrar no esporte, entre outros.

Natália - A escola proporciona um acompanhamento de um psicopedagogo ou um psicólogo para os pais?

Fabíola Sperandio - Sim, quando percebemos que a escola tem suas limitações. O profissional não pode vir para cá para clinicar, aqui não é uma clínica, aqui é uma instituição, por mais que tenha uma psicopedagoga, uma psicóloga, que tenha qualquer profissional, aqui temos que agir como instituição, temos que preparar, mediar a família, escola, preparar o professor para trabalhar com aquele aluno. O aluno individual tem que ir para a clínica. Na escola vamos trabalhá-lo no grupo; quando sentimos que tem uma especificidade, que é preciso ser trabalhada no campo emocional, no campo da aprendizagem, encaminhamos para um profissional e pedimos para esse profissional criar laços com a escola. Por quê?  Porque o psicólogo ou o psicopedagogo vai observar no individual e juntos vamos casar as informações. Esse casamento é importante, mas quando percebemos que o aluno precisa de algo mais, que vai além dos nossos limites, procuramos uma fonoaudióloga, neurologista, uma psicóloga, um psicopedagogo. É uma coisa bem natural.

Natália - E qual o procedimento com os alunos que não alcançaram a média necessária para passar de ano?


Fabíola Sperandio - Para os alunos que não estão alcançando média, realizamos um acompanhamento chamado recuperação paralela. Lembra quando falei dos encontros com os pais? Então, nesses encontros traçamos metas na escola e para casa de recuperação de conteúdo. Recuperando o conteúdo, consequentemente o aluno recupera nota. Investimos muito no preventivo incentivando para o estudo, proporcionando encontros de orientação para formação de hábitos de estudo. Acompanhando os resultados temos condições de avaliar as estratégias propostas e ajustá-las.